sábado, 30 de janeiro de 2010

Sobre O Apanhador no Campo de Centeio, Mushaboom e as coisas intensas da vida

Era uma vez uma garotinha reclusa de quinze anos de idade. Ela nunca beijara ninguém, amava somente os longos cabelos e os livros. Sim, ela amava os livros. Então, em uma bela tarde na escola, lhe aparece esse garoto. Não era bem um garoto, desses de carne e osso. Mas trazia outro garoto na alma. Mais um que não era de carne e osso, mas que era mais palpável do que os muitos reais que já haviam passado por sua vida. Seu nome: J. D. Salinger.

Ok, agora eu exagerei um pouco. Nem sou assim tão apaixonada pelo Salinger. Pra falar a verdade, eu nem sei o que significam o J e o D do nome dele. Mas a parte da garotinha de quinze anos e a paixão inconsequente pelos livros; essa parte é verdade. E acho que de todos os livros da época, O Apanhador no Campo de Centeio teve uma importância crucial na minha adolescência. Em primeiro lugar, porque foi ótimo ver a cara de orgulho de meu pai quando eu cheguei em casa com o livro (uma edição bem feinha, toda cinza e amarela). Em segundo lugar, porque eu me achava o máximo lendo um livro famoso que ninguém mais da minha idade havia lido. E, em terceiro lugar, porque o garoto do livro - Holden - foi o meu Edward.

Explico. Quando eu não acreditava mais que pudesse me apaixonar, eu me apaixonei por esse garoto do livro. Me apaixonei pelo seu jeito despachado, pela maneira que ele teve para descobrir o sexo e descobrir o mundo. Me apaixonei por ele um pouco justamente por ele ser o oposto desse tal de Edward Cullen (que, na época, nem sonhava em existir): Holden Caulfield NÃO é um bom garoto. Não é o namorado perfeito. Não é o filho ou o irmão perfeito. É só o apanhador no campo de centeio. O garoto que fica lá cuidando pra que ninguém caia do precipício. O garoto que vive - ou quer viver, pelo menos - intensamente.
Meu Deus, que livro! Que mágico que foi lê-lo na época! Que mágico foi sentir-me apaixonada de verdade pela primeira vez! Que mágico foi ficar imaginando como seria se aquele garoto existisse de verdade...
Ser expulso do internato e ir viver pelo menos um fim de semana da vida real. Entrar em bares e mentir a idade pra conseguir bebida. Dormir com uma estranha, pelo menos uma vez, só pra experimentar. Se complicar com o fecho do sutiã da menina na primeira vez...
Se alguém me ensinou a viver - ou a querer viver, pelo menos - intensamente, esse alguém foi Salinger e seu Holden. Holden me abriu para o mundo, me abriu para o amor que viria, me abriu para os sorrisos e me ensinou a me permitir, a deixar rolar.
E aí que eu chego na segunda parte de toda essa ladainha. Viver intensamente. Abraçar quando sentir vontade de abraçar, beijar quando sentir vontade de beijar, me vestir com as roupas que me fizerem sentir bem e ligar o foda-se.
Acho que por isso que amo tanto as crianças. Porque chegar e abraçar uma criança vai te trazer apenas um sorriso e um abraço de volta. E, provavelmente, num adulto, um abraço sem motivo traga estranhamento e até desconfiança.

Pela memória de Salinger, eu prometo tentar, ao menos, ser mais intensa. Ser um pouco mais como esse meu primeiro amor.
E a música para esse momento é, simplesmente, Mushaboom!


Sim, é esse o sentimento! ^.~

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